Crônica literária

Há exatos 20 anos, comprei um livro de “Edgar Morin – A educação e a complexidade do ser”, de Isabel Petraglia, a sétima edição de 2002. Na época, eu era outra pessoa, e o livro também me parecia diferente, moldado pelo contexto de duas décadas atrás.

Ontem à noite, reencontrei o livro na minha prateleira e me aventurei em uma releitura. Descobri que já não era a mesma leitora. Nem o livro era o mesmo. Agora, sua escrita parecia mais leve, seus conceitos mais claros. Minha bagagem de vida e conhecimento tornava possível enxergar nuances que antes me escapavam. Fazia conexões espontâneas com o presente, analisava ideias sob a ótica da complexidade de Morin – ainda que superficialmente.

E então aconteceu algo curioso: uma sensação de plenitude tomou conta de mim. Talvez fosse efeito do repouso forçado – eu me recuperava de um procedimento dentário –, mas o fato é que aquele reencontro literário me trouxe um bem-estar. A leitura fluía sem esforço, como se eu e o livro tivéssemos feito um pacto silencioso de compreensão mútua.

O pensamento de Morin me soava familiar: ele fala da “incerteza da ciência e da importância de distinguirmos os diferentes aspectos do nosso pensamento, sem jamais isolá-los, separando-os”. E ali, no cerne do pensamento complexo, encontrei a chave: distinguir, mas não separar.

Entre uma página e outra, percebi que o mesmo se aplica ao tempo e à memória: não somos estanques, nem nossos livros são. Crescemos, e com isso mudamos o sentido do que um dia lemos. Talvez seja por isso que reler um livro seja um encontro – com ele, e com quem fomos ao lê-lo pela primeira vez.

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